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Cláudia Delgado, bióloga marinha
Acabo de regressar de dois dias fantásticos... no mar.
Zarpámos bem cedo do pequeno porto de Machico a bordo do veleiro Ziphius, uma embarcação pertencente ao Museu da Baleia – Madeira.
Os objectivos para os dois dias eram percorrer as áreas ou sectores entre a Madeira e o Porto Santo e também à volta do Porto Santo, no sentido de estimar abundâncias de cetáceos e áreas-chave para a conservação destes animais nesta região do Atlântico. Regularmente a equipa do Museu da Baleia sai para o mar para estes census – à volta da Ilha da Madeira e Porto Santo e também Ilhas Desertas e, mais raramente, das longínquas Ilhas Selvagens, extremo sul do território Português – objectivos estes que integram um vasto programa científico e educacional sobre os cetáceos nos mares da Madeira desenvolvido pelo Museu da Baleia. Por vezes, algum elemento da equipa não pode sair para o mar e alguns voluntários entram em acção. Foi nesse papel que embarquei desta vez.
As previsões prometiam bom tempo. E assim foi: mar chão em pleno oceano aberto. Como se diz por aqui... mar largado, mar de senhoras. Mas também mar de tartarugas... e cetáceos, muitos. Os dois dias revelaram-se surpreendentes, com um recorde de avistamentos de cetáceos para esta área, considerada 'pobre' em relação a outras áreas mais junto à Madeira, muito provavelmente porque as batimétricas entre a Madeira e o Porto Santo chegam a ultrapassar os 3500 metros, e algumas das espécies preferem áreas mais costeiras.
Os 'encontros-imediatos' foram muitos: roazes Tursiops truncatus, golfinho-pintado Stenella frontalis, baleias-piloto Globicephala macrorhyncus (1, 2), um cachalote-pigmeu Kogia breviceps ao longe e tartarugas-comuns Caretta caretta bem perto, entre outros não identificados. As aves marinhas também passavam junto ao barco: cagarrras Calonectris diomedea, um ou outro garajau Sterna hirundo mais junto de costa e também 2 raras freiras Pterodroma sp.. A distinção entre a freira-da-Madeira e a freira-do-Bugio é francamente difícil, apenas os especialistas as distinguem em voo. Mas as espécies raras ou ameaçadas não recebem atenção em exclusivo, porque até o lixo observado a boiar é registado – infelizmente mais frequente do que seria de prever em zonas tão distantes das grandes aglomerações populacionais costeiras.
Em função das espécies observadas existem objectivos específicos: os roazes e as baleias-piloto, por exemplo, são metodicamente fotografados para posterior foto-identificação, o que permitirá caracterizar as eventuais populações que vivem nestas áreas. Ocasionalmente, são também colocados pequenos transmissores nalguns indivíduos com o objectivo de melhor conhecer a ecologia da espécie, nomeadamente o seu comportamento de mergulho.
Mas a grande surpresa aconteceu na alvorada do segundo dia, à saída do Porto Santo: não teriam passado mais de 30 segundos depois de um dos elementos da equipa ter subido ao seu posto de observação, quando a expressão 'avistamento!' se fez ouvir. Toda a equipa estava a postos e, se alguém ainda não tinha acordado completamente, a agitação a bordo fez com que tudo e todos acordassem de vez.
Após alguns momentos de hesitação e discussão, o diagnóstico era incontestável: eram mesmo 4 indivíduos das esquivas e pouco conhecidas baleias-de-bico Mesoplodon densirostris. Os animais estavam muito perto e aproximaram-se da embarcação, curiosos e a fazer-nos companhia à proa. Este comportamento é raro e deixou todos os elementos a bordo fascinados. A transparência e a calma das águas permitia observar os animais em todo o seu detalhe.
Dada a escassez de conhecimento desta espécie a oportunidade afigurava-se única para investigar o seu comportamento. Optou-se por 'marcar' um dos indivíduos, i.e., colocar um pequeno transmissor acoplado a um TDR (Time-Depth-Recorder) que permite conhecer melhor o comportamento de mergulho dos animais. Estes pequenos aparelhos libertam-se algumas horas depois e, através de sinais de rádio, podem então ser recuperados pelos investigadores e os preciosos dados obtidos. Apesar de, neste momento, o transmissor ainda não ter sido recuperado, só o facto de se ter conseguido colocar um transmissor num indivíduo desta espécie constitui já uma pequena vitória. A alegria a bordo foi grande no momento em que a ventosa se colou ao animal.
Curiosamente, tudo isto se passava ao mesmo tempo que a reunião anual da Comissão Baleeira Internacional (IWC – International Whaling Comission) reunia no Funchal para discutir os destinos dos cetáceos de todo o mundo, com a participação de delegados governamentais, observadores, organizações inter-governamentais, organizações não governamentais (ONG's) e imprensa. Quaisquer que tenham sido as conclusões dessas reuniões, é certo que há sempre concessões a fazer de parte a parte – afinal, são negociações ... mas será o regresso à 'caça à baleia' o caminho, nomeadamente quando se tratam de povos cujas necessidades alimentares básicas não estão em causa e há espécies de cetáceos em sério risco de extinção? Uma coisa é certa: da leitura de vários artigos publicados na comunicação social aquando da abertura das sessões de trabalhos na passada segunda-feira, concluiu-se que a desinformação e a confusão jornalística é muita e grave – com versões completamente diferentes nas várias fontes; caso para pensar que os jornalistas estavam em lugares diferentes do planeta? Ora isso é lamentável, pois esta é a única fonte de informação para o cidadão comum e muitas vezes incauto relativamente aos erros jornalísticos, intencionais ou não, dos vários agentes da comunicação social.
Os encontros imediatos com outras espécies ficam marcados para uma próxima oportunidade... na top list estão o tubarão-baleia Rhincodon typus e a tartaruga-de-couro Dermochelys coriacea, espécies raras mas já observadas noutros anos nos mares da Madeira, mas também outros 'gigantes dos mares'.
É verdade que já tive oportunidades fantásticas no mar – mas esta viagem ficará na memória por muito tempo. Há dias assim, lá fora no azul – deep, deep blue.
Publicado às 12:00 am por Departamento Educacional do Zoomarine
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