"Fénix" renascida
Edgar Ribeiro, Educador Ambiental
A perda de biodiversidade à escala global é um facto incontornável. Basta uma simples pesquisa, num qualquer motor de busca, para que o nosso ecrã se encha de factos reportando o desaparecimento de inúmeras espécies.
Os dados recolhidos nos diversos estudos efectuados apontam para que a taxa de extinções seja 100 a 1000 vezes superior ao "normal". Transformando estes valores em algo mais palpável: a cada 20 minutos uma espécie, de fauna ou flora, extingue-se.
As causas do decréscimo da biodiversidade global são amplamente conhecidas: destruição de habitats, poluição, espécies invasoras e a caça; são apenas alguns exemplos das ameaças que as espécies enfrentam.
Este conjunto de problemáticas cria uma complexa rede, da qual muitas espécies não conseguem ser salvas. Mas felizmente, para muitas outras, ainda há esperança!
Certamente, muitos dos leitores já tomaram conhecimento da existência de diversos programas de conservação, que se dedicam à protecção tanto de espécies como de habitats. O sucesso ou fracasso destes programas depende de inúmeros factores: cada caso é um caso!
O programa de que pretendo falar tem várias nuances, por exemplo: a espécie é um típico exemplo de uma espécie bandeira, para além de ser um ícone nacional. Apesar disso, nada impediu que o pigargo-americano (Haliaeetus leucocephalus) vivesse no fio da navalha durante vários anos.
Mas, para perceber o que torna este caso especial ao ponto de me levar a contar a sua história, para além da grande empatia que tenho com esta ave de rapina, é necessário recuar no tempo até 1872. Nesse ano, por deliberação do Congresso, o pigargo-americano foi escolhido como símbolo nacional dos Estados Unidos da América. Tal distinção devia ter funcionado como um escudo contra eventuais ameaças à sua sobrevivência, o que não se veio a verificar.
Não foi a objecção de Benjamin Franklin, um dos fundadores da nação, que defendia que o perú era sim moralmente digno de tal distinção, a colocar o pigargo-americano à beira da extinção.
Os primeiros colonos europeus viram nesta águia um competidor pelos recursos pesqueiros e uma ameaça ao gado. Argumentos mais do que suficientes para tornar esta ave num alvo a abater, aos quais se juntou a caça "desportiva". Na sequência do processo de colonização, o crescimento dos centros urbanos e a necessidade de construção de estruturas de apoio a este desenvolvimento, levaram à alteração e destruição de vários habitats do pigargo-americano.
Esta sucessão de acontecimentos levou ao rápido decréscimo das populações, o que levou o Congresso norte-americano, em 1940, a proibir a caça, captura ou posse desta ave.
Em 1963 eram contabilizados, em 48 estados, apenas 478 casais reprodutores. Estima-se que em meados do século XIX existissem entre 250 000 a 500 000 espécimes, em toda a América do Norte.
Apesar da protecção legal, outro "inimigo" desferiu um rude golpe no já reduzido efectivo populacional: o DDT. Utilizado em larga escala, este pesticida chegava ao pigargo-americano através da cadeia alimentar, tendo uma influencia negativa na formação da casca dos ovos, o que inviabilizava o processo reprodutivo.
Só em 1972 foi proibida a utilização de DDT, nos Estados Unidos da América. No ano seguinte entrou em vigor o "Endangered Species Act", onde o pigargo-americano foi classificado como ameaçado.
Os dois factos reportados anteriormente marcaram um importante ponto de viragem na história desta ave, rumo à recuperação. Mas foi necessário também o trabalho desenvolvido por organizações governamentais e pelas comunidades locais, na preservação dos habitats e em programas de reprodução e reintrodução. Outro factor preponderante, "last but not least", foram os programas educacionais de sensibilização, para todas as problemáticas e que demonstraram a importância da conservação desta espécie.
Foram 40 anos de trabalho, recompensados com a retirada do pigargo-americano da lista do "Endangered Species Act", em 2007. Um feito, infelizmente, ainda raro. Estima-se que actualmente existam cerca de 11 400 casais reprodutores.
Uma história de sucesso, que fez renascer o símbolo de uma nação.
Infelizmente nem todas as espécies gozam deste estatuto, pelos mais diversos motivos. No entanto todas elas são dignas de serem protegidas.
Como educador e acima de tudo como cidadão, olho para a educação como um elemento fulcral na construção de programas de conservação. O primeiro passo é dar a conhecer, se quisermos evitar este triste fado.