A importância dos intermédios
Omphale la Blanche, biólogo
Li há dias uma frase muito simples, da autoria de Miguel Esteves Cardoso, que brilhantemente (como é seu apanágio) explorou a forma como vemos duas (para mim das mais belas) estações do ano:
"A Primavera e o Outono não existem. A Primavera é o Verão que ainda não chegou e o Outono é o Verão que já acabou"
Esta é, creio eu, a forma como encaramos cada vez mais estas estações (leia-se Primavera e Outono); a preparação para o tão ambicionado calor (sinónimo, para muitos, de praia e férias) ou para o frio e a chuva (e as consequentes constipações). E raramente lhes reconhecemos a devida importância.
Talvez (garantidamente, acho eu) os mais velhos e experientes e aqueles que estão, de algum modo, ligados à terra e sentem "na pele" os constantes caprichos da Natureza, não encarem assim as estações, mas a muitos de nós, a vida citadina vai-nos "cegando" aos poucos, com toda a exuberância dos seus Shoppings, dos ares condicionados e dos carros desportivos.
Findo o desabafo, vejamos o que são, na realidade, as estações do ano.
As estações são caracterizadas pelos seus diferentes padrões climáticos, que por sua vez têm origem no movimento de translação da terra em relação ao Sol. As suas características climáticas resultam da distância do Sol e ângulo de incidência dos raios solares na Terra. E desde os tempos mais remotos que esta é uma sabedoria empírica, de onde os próprios nomes das estações provêm.
Primavera deriva do latim primo vere, que significa princípio de boa estação, fazendo jus ao início de um período de boas condições climáticas, com o aumento de temperatura e dias maiores.
Verão deriva de veranum tempus, que significa tempo da frutificação, período em que a chuva é escassa e os dias são mais longos.
Outono teve a sua origem em tempus autumnus, tempo de ocaso, em que os dias ficam progressivamente mais curtos e se aproxima o tempo mais frio e instável.
Por fim, Inverno, tempus hibernus, ou tempo de hibernar, quando o tempo se caracteriza por chuva e frio. Atrevo-me a dizer que o seu nome é quase auto-explicativo.
Estas quatro estações são, no entanto, mais sentidas nas regiões temperadas como a nossa (Portugal), em que há uma nítida variação da duração do dia ao longo do ano. Nas regiões mais setentrionais e equatoriais do globo, as estações resumem-se a duas, geralmente a estação quente e a estação fria.
Mas para o que nos diz respeito, é importante que possamos contar com as quatro estações, quer do ponto de vista económico (para toda a sazonalidade de culturas ou para o turismo), quer do ponto de vista biológico.
A região ecológica da Bacia Mediterrânica (na qual grande parte de Portugal se insere) é predominantemente caracterizada (ao contrário do que muitos poderão pensar) pela sua biodiversidade vegetal, perfeitamente adaptada às variações climáticas que caracterizam a região. As quatro estações, a desaparecer, levarão, inevitavelmente, a uma profunda mudança na paisagem e, consequentemente, em toda a diversidade biológica (florística e faunística). Para muitas espécies de animais, como para alguns anfíbios, a Primavera e o Outono são, precisamente, as alturas em que estão mais activos, pelas suas características climáticas menos extremadas (menos frio ou menos calor, respectivamente).
E o futuro, a este ritmo, não parece risonho. Parece incontornável que, a médio prazo, viveremos num Portugal a duas estações, em que as diferenças climáticas serão cada vez mais significativas; ou muito calor e seco; ou muito frio e dilúvios. E em nada beneficiará a biodiversidade de que tanto nos podemos orgulhar.
Correndo o risco de ser uma repetição de algo que muitas vezes ouvimos, arrisco ainda assim em apontar uma origem para esta mudança – a influência que o Homem tem nos ciclos normais da água, carbono, etc., assim como a contínua e crescente libertação de CO2 e outros gases de estufa para a atmosfera, que estão a alterar as dinâmicas e equilíbrios de todo o planeta.
Cabe, portanto, a todos nós uma pequena fatia de responsabilidade com a qual devemos e temos (!) de aprender a lidar. Podemos, através daqueles pequenos actos "ambientalmente conscientes", começar a inverter esta tendência, de forma a continuar a contemplar esta tão saudável heterogeneidade de condições climáticas com que a Natureza nos brinda todos os anos.
Publicado às 12:00 am por Departamento Educacional do Zoomarine