Quão verde podemos tolerar
João Neves, biólogo
Como qualquer um dos leitores já terão certamente dado conta, a temática da consciência pelo ambiente está aí para ficar. Se estiverem um pouco alerta, darão conta que a maioria dos eventos desportivos, congressos, seminários, encontros, reuniões de trabalho, etc. são cada vez mais verdes. Verdes, não porque as suas refeições sejam baseadas em verduras nem porque as cores predominantes sejam esverdeadas, mas porque têm uma cada vez maior consciência do impacto que pequenas ou grandes iniciativas que congregam dezenas, centenas ou milhares de participantes poderão ter directamente no ambiente e nos recursos naturais. Até já existe um conjunto de entidades portuguesas que, ora facultam serviços de consultoria, ora aplicam directamente algumas das orientações na sua filosofia de base. Parece-me, à partida, que estamos a percorrer o caminho certo para a sustentabilidade...
Mas antes de nos congratularmos com esta nova e esperançosa perspectiva de futuro, permitam que comece por um desafio... Tentem fazer uma pesquisa simples num qualquer motor de busca na rede global acerca de eventos verdes.
Usando a expressão green events, encontram rapidamente um conjunto de links que dão dicas e muitas informações de como organizar uma qualquer iniciativa, seja ela pequena ou grande, com uma consciência ecológica. Valiosos conselhos estes que, altruisticamente ou não, nos são facultados e que, inclusive, têm aplicabilidade no nosso dia-a-dia. Escolher conscientemente os produtores e fornecedores, a origem e meios de produção, tipologia das embalagens, evitar o consumo de papel, optar pelos formatos digitais, etc. começam a fazer parte incontornável da planificação de eventos um pouco por todo o mundo.
Razões e formas para mudar há muitas e facilmente acessíveis. Mas será que é tudo assim tão linear?
Eu digo que não e, embora já tenha participado em alguns eventos que me deixaram motivado nesta nova consciência de sustentabilidade, há consideravelmente pouco tempo um fez-me repensar esta minha "esperançada visão do futuro".
Recentemente participei num evento desportivo que, à parte de toda a envolvência de saúde e bem-estar associada - que tão bem se coaduna com a mensagem ambiental, tinha uma forte imagem de sustentabilidade e preocupação pelo ambiente. Ora, tratando-se de um evento que juntou cerca de 15000 participantes, acrescido dos acompanhantes destes, estamos a falar aproximadamente de 25000 pessoas num único local. Muita carga orgânica num único local - uma óptima receita para um pequeno desastre ambiental...
À partida, nada me pareceu desajustado. Ao longo de quase duas horas de esforço físico, tive tempo de observar, desfrutar, reflectir e desesperar acerca de toda aquela máquina organizativa e a coerência da sua mensagem. Rapidamente me apercebi que de sustentável pouco havia.
Entre todo o investimento em material publicitário (muitos e muitos cartazes, bandeiras e afins) e excessiva oferta de produtos (e inerente desvalorização e descarte por parte dos participantes), o que mais me impressionou foi a quantidade de águas e bebidas energéticas disponibilizadas pela organização/patrocinadores. Não contesto, de todo, a necessidade desta disponibilidade, desde que com "conta, peso e medida". Contesto, sim, a despreocupação da organização, que tanto se orgulha de realizar um evento "cada vez mais verde", em possibilitar tal desperdício. Não sei quantas garrafas de água praticamente cheias ficaram por recolher após a prova (sim, a organização orgulha-se de que, por terem uma preocupação ambiental, recolhem todas as garrafas e entregam para reciclagem...) mas, para mim, as contas deverão que ser feitas de outra forma:
Quantos litros de água foram desperdiçados ao longo de apenas 21 quilómetros? Qual a energia necessária para a produção inicial daqueles milhares de garrafas? Qual a energia necessária para a reciclagem destas? Qual a poluição associada ao processo de reaproveitamento de todos os recursos descartados?
À parte de tudo isto, há que contabilizar ainda a poluição associada à enorme quantidade de brindes dos patrocinadores, que deixam o espaço assemelhando-se a uma lixeira... Simpática, por sinal, porque está repleta de marcas conhecidas...
Há quem diga que os portugueses, se de graça, até injecções na testa se sujeitam a levar...
Pois bem, à parte de toda aquela disponibilidade, orgulho-me em afirmar que, sendo um dos poucos portugueses presentes e ao contrário da generalidade dos participantes, apenas usei, conscientemente, uma garrafa de água em todo o percurso...