A Espiral Logarítmica José Luís Pereira, matemático Um dos mais
populares objectos matemáticos dos nossos dias é, sem dúvida, a espiral
logarítmica. Estudada inicialmente por René Descartes em 1638, esta curva foi
analizada extensivamente por Jacob Bernoulli algumas décadas depois que,
maravilhado com as suas propriedades matemáticas, a designou por Spira
mirabilis. De entre as propriedades desta espiral destaca-se a propriedade de
equiangularidade (ver figura 1):
Dado qualquer ponto P sobre a espiral
logarítmica, o ângulo entre o respectivo raio e a tangente à curva nesse
ponto é sempre igual a uma constante a. Uma vez que a espiral logarítmica é
a única curva a possuir esta propriedade, é comum também designá-la por espiral
equiangular.
Actualmente, a espiral logarítmica é utilizada na descrição
matemática de um impressionante número de fenómenos naturais. Eis alguns
exemplos da sua ocorrência no mundo físico:
. ➢ No crescimento celular
das plantas a partir do meristema. . ➢ Nas conchas de certos moluscos, tal
como o nautilus. . ➢ Na disposição das sementes em algumas flores, como o
girassol ou as margaridas. . ➢ Na estrutura externa de algumas pinhas.
. ➢ Na aproximação de um falcão à sua presa. . ➢ No vôo de certos
insectos em relação a uma fonte de luz. . ➢ Nos nervos da córnea. . ➢
Nos ciclones tropicais. . ➢ Nos braços das galáxias espiral, como os da
nossa Via Lactea. Como é possível que uma curva de aparência tão simples
explique uma tão grande diversidade de fenómenos (1)?
Na sua
essência, a espiral equiangular é a descrição matemática de um processo
evolutivo resultante da sobreposição de dois movimentos distintos: 1.–
uma rotação a velocidade constante. 2.– um deslocamento, ou crescimento, com
aceleração constante.
Assim, qualquer fenómeno físico que possa ser descrito
de acordo com um tal processo gerará, em algum sentido, uma espiral logarítmica
e, portanto, partilhará das propriedades desta curva. Em particular, a
propriedade de equiangularidade diz-nos, por exemplo, que um falcão observa a
sua presa sempre a partir do mesmo ângulo de visão, e, portanto, esse ângulo
deve corresponder a uma acuidade visual máxima.
Mais geralmente, uma
estrutura que evolua segundo um processo equiangular manterá a sua forma ao
longo do tempo, independentemente da taxa de crescimento e é esta maneira de
evoluir que une de forma profunda uma célula a uma galáxia.