O Ano dos Funerais
Élio Vicente, biólogo marinho
Neste 2009 que agora termina, uma expressão houve que comecei a utilizar e que utilizei mais vezes do que julgaria previsível...
Acreditei que, quando em contexto, ela me ajudaria (com maior ou menor sucesso) a explicar uma ideia e a assumir uma convicção (e, por vezes, uma necessidade). E expressa, para o melhor e para o pior, alguns momentos (mais felizes e menos felizes) da minha vida pessoal e profissional ao longo do ciclo de 12 meses que está prestes a terminar.
A expressão é "O progresso acontece funeral a funeral".
Numa sociedade em que o tema da morte ainda é tabu e onde poucas pessoas são ensinadas a lidar com a "dama de negro" (antes e depois desta se impor, literalmente, nas nossas vidas e nas vidas de quem conhecemos e de quem amamos), pode não ser fácil aceitar quem usa, aparentemente de uma forma quase leviana, uma frase como esta. Por vezes senti, nos outros, algum "choque" quando a ouviam pela primeira vez... E se poucas pessoas sabem comportar-se num funeral (e muito menos num enterro...), ainda menos parecem saber como abordar uma pessoa que está a atravessar, emocionalmente, um processo de morte. Inerentemente, também poucas pessoas acharão normal que alguém possa usar tal expressão para mostrar que... chegou a mudança.
Porque, entre outras coisas, e na sua percepção mais básica, é isso que a morte significa - Mudança.
Naturalmente, a dor associada à perda (uma mudança...) tende a ser a parte mais difícil para a maioria de nós. Mas não é a única imposição que uma morte acarreta...
[como podem perceber, estou a usar, qual personagem do Harry Potter, a expressão "morte" da mesma forma como o nome "Voldemort" deveria de ser referido; decidi assumir a palavra "morte" de uma forma directa, olhando-a nos olhos, consciente e respeitoso do seu poder; preciso de a aceitar - e um dos primeiros passos é a sua verbalização].
Voltando à expressão...
Quando usei tal frase nunca pretendi chocar ou surpreender ninguém. Nunca. O problema é que raras pessoas perceberam a sua génese - e, portanto, raramente perceberam o seu uso...
A verdade é que a primeira semana de Janeiro de 2009 começou por trazer uma das mortes mais difíceis da minha vida. Foi, praticamente, há um ano. E tal perda teve um tal impacto em mim que nunca anteveria ser tão forte (é que, por mais que se prepare a mente, nunca se prepara o coração...).
Ora como qualquer biólogo sabe, os organismos vivos mudam todos os dias. Mudam fisiologicamente (contigências da marcha inexorável do tempo...) e mudam emocionalmente. Chamamos-lhe "evolução", apelidamo-la de "crescimento".
Pois eu "cresci" imenso, num horroroso dia de Janeiro, e em muito poucas horas...
E fui induzido a crescer ainda mais, várias outras vezes, desde então.
Há 12 meses, portanto, que o chavão que referi anteriormente (uma suposta adaptação de uma frase de Max Planck) me vem ajudando, semana após semana, em vários aspectos práticos e emocionais. Usar a frase foi, entre outras coisas, uma forma de, pública e oficialmente, me auto-impor uma catarse e me habituar à ideia de que nós não pertencemos a ninguém e ninguém nos pertence. Foi uma forma de me consciencializar em absoluto de que não pertencemos a nenhum processo e que nenhum processo nos pertence. E de me tornar ainda mais íntimo da ideia de que nunca estaremos neste mundo suficiente tempo para homenagear quem merece (e dessa/s pessoa/s desfrutar o máximo possível...).
Naturalmente, mais tardia ou precoce, mais suave ou abrupta, mais consciente ou inconsciente, após uma percurso mais feliz ou infeliz, o conceito (e a experiência - ainda que indirecta) da morte representa, para a grande maioria de nós, o "fim"... Mesmo para quem é crente, a morte representa o fecho de um percurso. A irrevogável mudança para um estado do qual não há retorno... Representa a dissolução (biológica - para os religiosos ou crentes; ou absoluta - para os restantes). E representa sempre uma perda...
E, como defendi atrás, nós ainda não somos verdadeiramente ensinados a lidar com as perdas. Especialmente, com as que são emocionais.
Eu não sou excepção. Em 2009 despedi-me de algumas pessoas e de alguns projectos que foram imensamente importantes para mim. Algumas dessas pessoas acompanharam-me por quase 40 anos; outras, por mais de 10 ou 15 anos. Uma dessas pessoas morreu-me biologicamente... Outras impuseram-me (directa ou indirectamente) outras tantas mortes emocionais (morte nas partilhas e nos convívios). Outras houve perante as quais fui eu quem teve que assumir a morte.
Foram processos extraordinariamente dolorosos, praticamente sem excepção. Mesmo o "mais leve" foi muito duro. E por isso mesmo, em todos os casos também morreu uma parte de mim (outro chavão - mas são nas suas verdades subjacentes que os chavões se tornam poderosas ferramentas pedagógicas e de comunicação) .
Mas as perdas, por vezes, implicam conquistas. Perdemos pessoas, perdemos projectos, perdemos oportunidades. Mas podemos aprender sempre algo...
E é com esta ideia que pretendo terminar este texto [que, para o melhor e para o pior, e atendendo à data em que será publicado, poucas pessoas lerão]: que pode haver uma perspectiva positiva da morte.
Eu explico...
A "morte" que motivou este texto remete para um óbito metafórico - uma morte essencialmente simbólica; uma "morte boa"... Este texto é sobre o desaparecimento de uma morada (ainda por cima, tão fugaz como todas as moradas electrónicas) e, mais importante ainda, de uma gloriosa época. Desaparece uma morada muito importante para mim (e para outros colegas e amigos) e, em consequência, nasce uma nova morada e uma nova reorganização emocional. Tudo sincronizado com o Novo Ano (que sucede a um outro que morre dentro de horas).
Cinco anos volvidos após o seu nascimento, morre o blogue do Zoomarine na sua forma "blogdrive"...
Poderão perguntar-se alguns que importância tem tal? Para esses, nenhuma, certamente; mas imensa, para mim. É que embora seja eu um homem com formação científica, sou muito mais um homem de emoções do que um homem de factos e objectivos. E nesse sentido, ao longo de cinco anos, este blogue representou, para mim, um dos períodos mais ricos e motivantes da minha vida profissional e pessoal. "Morre" no Inverno de 2009, depois de ter nascido no Outono de 2004 - um ano absolutamente inenarrável, de tão intenso que foi. Agora, qual insecto em metamorfose, evolui para uma outra forma de vida e para uma outra vida. Mesmo DNA - outro "ecossistema".
Nestes cinco anos [assumo-o], este blogue representou algo (demasiado) especial para mim [o que será, certamente, uma grande surpresa para todas as pessoas que me rodeiam, com a excepção de apenas uma, que não lerá este texto]. Vi o blogue crescer como símbolo de uma equipa e de um entusiasmo partilhado; muito ironicamente, teve na sua génese uma outra morte. Agora, qual pai que vê o seu filho a constituir a sua família, sinto-o a deixar de precisar, formalmente, dos meus cuidados no dia-a-dia (mas diga-se, em abono da verdade, que há demasiado tempo havia prescindido de tal). Vi-o crescer e expandir, ganhado "alma". Vi-o "feliz" e robusto, saudável e confiante. E agora vejo-o partir para a vida adulta, numa outra "cidade". Parte e com ele "leva" o período de 5 anos que tão especial foi para mim.
The King is dead. Long live the King! E por isso mesmo, dentro de dias, após uma "morte" que representa evolução, o Blogue do Zoomarine muda de casa (tal como eu) e começa uma nova vida - com uma nova cara, uma outra dinâmica e, claro, ainda mais independente de um dos seus progenitores.
Mas atenção: é muito bom que assim seja! Embora possa sentir alguma tristeza, fico feliz e, acima de tudo, muitíssimo orgulhoso...
"Mas podemos aprender sempre algo... [perdoem-me, se faz favor, a auto-citação]. E eu aprendi também com esta mudança. Porque esta saudável tristeza ajuda-me a perceber, cada vez melhor, o sentimento de redundância que os meus avós sentem pairar sobre eles (injustamente, estou convicto...) e que começa a "abraçar" outros conhecidos meus. São as novas gerações a tomar o lugar das mais velhas. São as novas gerações a começar a cuidar e a ensinar as mais novas...
Ora tudo isto poderá parecer desajustado para quem conhece a minha idade biológica. Mas acreditem que os óbitos, sejam eles biológicos e/ou metafóricos, nos envelhecem - no que o envelhecer tem de bom e de menos bom. E eu estou a ficar velho.
Por isso mesmo, e goste-se ou não, acredito, mais do que nunca, que o progresso acontece funeral a funeral. E, como homem de ciência e como "pai" de alguns projectos que tanto estimo, e "progenitor" de vários profissionais que tanto admiro, não deixa de ser reconfortante finalmente perceber o como os funerais podem, na sua infeliz realidade e na sua pesada dor, ser libertadores e inspiradores.
Aos que perdi, nas suas diferentes mortes, ao longo 2009: nunca Vos conseguirei explicar como foram importantes para mim. Nunca Vos farei a devida justiça à felicidade que me proporcionaram e aos ensinamentos com que me presentearam. E nunca Vos deixarei "ir"...
Ao blogue do Zoomarine (que, agora, deliciosamente também "me morre"...): que o teu glorioso percurso continue com o rigor, a força e a diversidade de sempre, permitindo a muitos (como eu) continuar a aprender e a ser inspirado pela força e magia da Natureza - aquela que é a mãe dos funerais e a raínha da evolução.